domingo, 19 de fevereiro de 2012


Quando li a primeira frase do livro “Último Volume” de crónicas do Miguel Esteves Cardoso, decidi que um dia quando crescesse queria escrever como ele. E nunca mais larguei o livro até à última linha. Dizem que as grandes paixões são assim. Ao primeiro olhar. No primeiro contato. Mas que depressa se eclipsam. Aqui estou eu a contrariar a regra. Há paixões que duram uma vida inteira. 
Desde esse dia, comprei todos os livros de crónicas que ele tinha publicado; devorei os dois romances que ele entretanto escreveu a seguir. Estávamos nos anos 90 e o Miguel era uma verdadeira estrela. Podia haver quem não gostasse dele, mas ninguém  discordava que ele era brilhante. Dizia o que queria; escrevia o que lhe dava maior gana, com inteligência, com humor, com sarcasmo e perfeita harmonia. Tinha um sentido apurado para fazer as críticas sociais e políticas com que toda a gente se identificava. Fazia gravuras límpidas e sublimes sobre a sociedade e o Portugal dos anos 90. Não tinha medo nem vergonha. Tinha um descaramento abusado mas ao mesmo tempo infantil e enternecedor. 
Mas o mais óbvio nele era a imensa paixão com que inundava todas as frases que escrevia. Fosse a falar do que fosse. Dos erros gramaticais de português, dos betinhos como de intimidades suas. A sua paixão era comovente e comovia.  
Ontem descobri uma carta que escrevi há mais de dez anos atrás ao Miguel Esteves Cardoso. Em que lhe dizia: “Para mim, não há nada perfeito no mundo, mas o Miguel conhece a perfeição de perto, já lá caminhou muitas vezes e sabe que chegar lá não é impossível.” 
Mais uma vez foi ele que me inspirou a prestar-lhe uma homenagem. Recordo-me de andar a ler em voz alta, para trás e para a frente, no meu sotão, as maravilhosas crónicas que ele então escrevia n´O Independente. E sempre que as suas palavras me arrepiavam a pele e me chegavam ao coração - porque ele tinha o dom de dizer por palavras aquilo que eu pensava ou sentia - fazia-me sonhar: um dia, quero escrever assim! É verdade que entretanto cresci e continuo a ter uma imensa paixão pelas suas palavras e pela escrita. No entanto, já aterrei e sei que por mais que me coloque em bicos de pés ou faça o pino, nunca serei capaz de escrever como ele escrevia! É mais fácil um dia fazer a esparragata! 
Confesso que ultimamente não tenho acompanhado muito do que ele escreve. Hoje até andei à procura do seu blog - mas não encontrei nenhum que me pareça estar actual: Pastilhas? Restos de colecção? Esta semana no dia dos namorados,  alguém colocou um post sobre a crónica que ele escrevou no Público sobre o amor! Como sempre está maravilhosa. Simples e perfeita. 
Tenho saudades dele. E cada vez que isso acontece, procuro os seus livros ou algumas crónicas que rasguei dos jornais e ainda conservo dentro dos seus próprios livros dobradas e não me canso de reler as suas palavras perpétuas e intemporais. Volto a sonhar e a entender perfeitamente aquilo que ele me está a dizer. Como se tivesse acabado de as escrever. 
Quem atinge a perfeição uma vez, fica para sempre. 

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